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Pulsão


O sangue - que corria pelas veias, artérias, caminhos inexplicáveis, quebrou dobradiças, soltou um rojão, despertou a vizinhança, os cachorros latiram, o alambrado caiu, Pompéia ressuscitou das ruínas, o Vesúvio virou um mar aberto, morros, ventos uivantes que soam como cordas vocais de deusas gregas, o sol, esse continua o mesmo, talvez mude de cor, ou congele, as pontes virarão portas, os muros virarão papel, o papel deixou de existir, e quando o coração pensou em parar, ela virou a esquina, ela atendeu o telefone, a música tocou no rádio, o espaço-tempo reuniu todos os milésimos de segundos em que a felicidade perdurou entre os corpos amantes, mesmo que em sonho, ou mesmo que entrelaçados pela eternidade, o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas então, a luz foi acesa, as artérias, bactérias, átomos, e tudo que é indivisível, e tudo que é divisível, somado, multiplicado, aniquilado num piscar de olhos, levam a etender que no fim o coração, esse demasiado suscetível e implacável, bate em seu próprio ritmo, e suas horas são indefinidas, sopradas em direção ao infinito, e toda a pulsão, pulsão sobre pulsão que acarreta o sangue pelas veias, as pessoas pelas viélas apaixonados, uma tanajura ao voo nupcial, que logo em seguida a levará ao abismo letal, tudo isso, e nada disso, perdurou eternamente até que eu lembrei que tudo isso já passou e o coração não respinga - bombardeia.

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