Hoje vamos falar de um conto de um autor latino, de nome Julio Cortazar
Julio Florencio Cortázar foi um escritor argentino, tido por muitos como um dos maiores nomes da literatura latina, nasceu na embaixa da argentina, em um distrito de Bruxelas, na belgica e voltou a sua terra sulamericana aos 3 anos de idade. Em 1935 formou-se na "Escuela Normal de Profesores Mariano Acosta".
Entre tantos contos e escritas incriveis do autor, escolhemos um que faz-se refletir e navegar por uma especie de distinção, como poucos na literatura, a linha tenue entre a ficção e a realidade.
CONTINUIDADE DOS PARQUES
Julio Cortázar
Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.
Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
💡
A narrativa, começa com um homem, lendo seu romance, e ao ler a primeira frase, percebe-se que há um personagem-leitor e logo faz parecer que já havia começado a ler seu livro, sugerindo ao leitor que o texto possui uma linha de tempo regular que sai do passado e chega ao futuro passando pelo presente, porém, ao decorrer do conto, ele narra como se estivesse lendo uma história ficcional, no qual duas pessoas se encontravam na cabana do monte, sendo uma delas uma mulher e o outro seu amante; "Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos." Logo apos, ambos saem e vão cada um para seu lado, o leitor/narrador continua lendo a história, até que finalmente o amante da senhorita dos beijos, chega a uma casa, e dessa casa entra com o punhal na mão e encontra; "uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance."
Apunhalados, nós leitores, afinal, na literatura o que é real? E como podem ter certeza que nós não somos obras literarias de outro Cortázar?
Até a próxima!
Julio Florencio Cortázar foi um escritor argentino, tido por muitos como um dos maiores nomes da literatura latina, nasceu na embaixa da argentina, em um distrito de Bruxelas, na belgica e voltou a sua terra sulamericana aos 3 anos de idade. Em 1935 formou-se na "Escuela Normal de Profesores Mariano Acosta".
Entre tantos contos e escritas incriveis do autor, escolhemos um que faz-se refletir e navegar por uma especie de distinção, como poucos na literatura, a linha tenue entre a ficção e a realidade.
CONTINUIDADE DOS PARQUES
Julio Cortázar
Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.
Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
💡
A narrativa, começa com um homem, lendo seu romance, e ao ler a primeira frase, percebe-se que há um personagem-leitor e logo faz parecer que já havia começado a ler seu livro, sugerindo ao leitor que o texto possui uma linha de tempo regular que sai do passado e chega ao futuro passando pelo presente, porém, ao decorrer do conto, ele narra como se estivesse lendo uma história ficcional, no qual duas pessoas se encontravam na cabana do monte, sendo uma delas uma mulher e o outro seu amante; "Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos." Logo apos, ambos saem e vão cada um para seu lado, o leitor/narrador continua lendo a história, até que finalmente o amante da senhorita dos beijos, chega a uma casa, e dessa casa entra com o punhal na mão e encontra; "uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance."
Apunhalados, nós leitores, afinal, na literatura o que é real? E como podem ter certeza que nós não somos obras literarias de outro Cortázar?
Até a próxima!

Comentários
Postar um comentário