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Variedades (novel)

Olá, na sexta feira de variedades decidi apresentar uma pequena novela. Dependendo de feedback ou de meu humor eu posto um capitulo todas as sextas. Espero que gostem!

O Universo tem cheiro de Café, Júlia? - Anderson Rios, 2018/19



Era segunda-feira, Julia acordava cansada, sentia exausta quando acordava na segunda, odiava levantar cedo, mas aquele dia era seu primeiro dia de trabalho. Ela sonhou anos por algo grandioso, mas nada chegava perto daquele emprego. Da pra se dizer que era o emprego dos sonhos de Julia, pois Julia amava pintar, Julia amava Cinema, Júlia amava Tarkovsky, Júlia tinha um cabelo curto, Julia tinha tanta vontade de ir pra Paris, Julia amava Godard e Monet, Amava Fernando Pessoa e Lygia Fagundes Telles, ah, essa mulher era um dos maiores amores de Júlia. Julia? Não. Lygia! Quem dera Júlia se amasse como Júlia amava Lygia.
Uma semana  antes ela estava lendo um de seus contos favoritos em uma de suas cafeteiras favoritas. O conto chamava "o Universo em uma bolha de sabão", após terminar o conto, saiu rapidamente e ia até o metrô, mas no caminho notou que havia esquecido seu livro, distraída que era Julia, devia ter esquecido algo mais, mas o livro era o mais importante naquele momento. Ao voltar ao Café, viu que no seu lugar havia um homem lendo seu livro. Ela se aproximou, pediu licença e disse,
- Oi, poderia... digo, esse livro é meu, eu esqueci, e...
- Lygia Fagundes Telles – Disse o jovem ali sentado – Ela, a Lygia sempre me disse pra ler esse livro mas eu não gosto muito  de ler... digo, ate gosto mas sou mais de coisas com mais ação, sabe?
- Entendo... - disse ela, um pouco sem jeito – Eu amo... espera!? – seu semblante mudou de repente, como se caísse uma garrafa em sua cabeça  - Você disse que ela te disse, ela, para ler esse livro? Você a conhece?
- Sim – Respondeu sorrindo, fechando o livro e entregando a Julia. – Ela é amiga da minha irmã, então eu sempre encontro ela e conversarmos. 
- Inacreditável! – surpreendida Julia disse de sobressalto, - Você conhece a Lygia, e como ela é? Ah.... desculpa, meu nome é Júlia, como... digo, qual o seu nome?
- Me chamam de Camel, Mas meu nome mesmo é  Bruno, Bruno Souza Camel 
- Tenho a impressão de você não estar dizendo a verdade - Disse ela fazendo uma careta 
- Hahaha, desculpa! Mas eu percebi que você é espertinha!
- Seu sem graça. Meu irmão vivia fazendo esses tipos der brincadeiras, hoje ele vive em uma cadeira de rodas... - disse trocando uma cara de zangada por uma risada -
Camel que estava rindo, olhou para ela estranhamente e disse,
- Desculpa! Eu costumo mentir um pouco, mas agora estou sendo sincero sobre eu ser mentiroso. Mas um fato interessante, eu amo a Ligya também,meu conto favorito dela é exatamente esse que você, provavelmente, terminou de ler... 
- Sério? Eu... digo, eu terminei esse conto e tive uma sensação horrível e fui correndo até em casa, precisava ligar para alguém e dizer...
- Mas os melhores – Interrompeu Camel – são esses, não são?
- Olha.... Camo?
- Camel!
- Isso, Camel!!!! – continuou fazendo um bico com a boca – Eu sempre disse isso para minha amiga Rosa, é inacreditável como esses são os que mais ficam em minha memória, e olha que não sou boa de memória, mas esses contos que me chocam, São os meus favoritos... mas esse... tinha algo nele que não sei explicar, quando terminei, senti uma vontade absurda de ouvir a voz de um amigo, mas no meio do caminho,meus pensamentos, os sons da rua, os caminhões, me fez sentir bem, lembrar que a vida é curta e que o agora está em nossas mãos, alguns têm medo e soam só de pensar nisso, já eu amo saber que e acreditar que as coisas não tem sentido e que todo o meu caminho só depende de minhas escolhas, e está tudo bem.
- Gostei de você! – Disse com uma voz baixinha, 
-- Sabe, apesar de mentiroso, há algo em você que me parece familiar, não, digo... aconchegante. Nossa – Suspirou em voz alta  - Esqueci que tenho que ir até ao correios. 
- Te vejo novamente? Perguntou Camel, devolvendo o livro a ela.
- Você frequenta muito esse Café? 
- Sim
-Então provavelmente sim. Espera, como você vem sempre aqui e eu nunca te vi?
- Você está sempre lendo.
- como você sabe?
- Eu sempre te vejo, boba!
- Ah, - Disse ela sorrindo sem jeito – Então até um próximo conto. 
- Até!




Capitulo do Livro / NOVEL "O universo tem cheiro de café, Julia?", de Anderson Rios

OBRA: Automat, 1927. Edward Hopper (1882 - 1967)

......

Se gostar, comentem! 

Comentários

  1. M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O. Como sempre, muito talentoso. Parabéns, Anderson!! 👏👏

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